
Educar Criança com PHDA: 12 Princípios para o Sucesso Prático
Educar com PHDA: Guie como "pastor", não "engenheiro". Use pistas visuais, recompensas na hora e planeie situações desafiantes. Menos culpa, mais suporte e rotinas eficazes.
Baseado no livro “12 Principles for Raising a Child with ADHD”, Russell Barkley, ©2020 Guilford Press, publicado com permissão de The Guilford Press.
- A educação foca-se em guiar e apoiar, não em controlar resultados.
- Externalizar a memória com pistas visuais compensa as dificuldades biológicas da criança.
- A antecipação e o reforço positivo imediatosão as ferramentas mais eficazes para gerir comportamentos.
O que são os Princípios de Russell Barkley?
Os 12 princípios de Russell Barkley são orientações baseadas em evidência científica para pais de crianças com PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção). O objetivo não é “corrigir” a criança, mas sim adaptar o ambiente e as expectativas para promover o seu bem-estar.
Educar uma criança com PHDA não é sobre “corrigir” comportamentos — é sobre compreender o que está por detrás deles e aprender novas formas de orientar, apoiar e construir confiança.Russell A. Barkley, um dos maiores especialistas mundiais em PHDA, resume neste livro meio século de investigação e prática clínica em 12 princípios práticos.
1. Use as chaves do sucesso
O ponto de partida é garantir que a criança recebe diagnóstico e acompanhamento adequados — porque existem apoios para a PHDA!
Depois, é essencial:
- identificar pontos fortes
- encontrar recursos que os potenciem
- acreditar genuinamente nas capacidades da criança
A mãe de Michael Phelps canalizou a energia e a impulsividade do filho para a natação, oferecendo estrutura, apoio emocional e regras claras — e isso mudou tudo. Outras histórias reais mostram o impacto de pais que persistem, ajustam estratégias e acreditam que o sucesso é possível com as ferramentas certas.
2. Lembre-se: PHDA é uma condição
É fácil esquecer que uma criança com PHDA não é como as outras — e isso pode gerar frustração, críticas e sentimentos de culpa.
Durante muitos anos, e ainda hoje na perspetiva de alguns, a PHDA foi vista como:
- desobediência
- falhas na educação parental
colocando injustamente a culpa na criança.
Quando mudamos a perspetiva e reconhecemos a PHDA como uma condição e não como uma escolha, abrimos espaço para a compaixão — tanto para a criança como para o cuidador.
Isto permite:
- ajustar expectativas
- fazer adaptações adequadas
- dar lugar ao perdão
Perceber que muitas dificuldades não são culpa da criança reduz conflitos, melhora relações e abre portas ao apoio adequado, promovendo o verdadeiro bem-estar.
3. Seja um pastor, não um engenheiro
Barkley usa uma metáfora simples:
- O engenheiro quer controlar todos os resultados.
- O pastor guia, protege e acompanha — sabendo que não controla o caminho.
Educar uma criança com PHDA é isso mesmo: acompanhar, não comandar.
4. Defina as suas prioridades
Nem tudo precisa de ser corrigido.
É fácil gastar energia em batalhas diárias — tarefas, regras, birras — e perder de vista o essencial: bem-estar, segurança e ligação emocional.
Barkley recomenda escolher quais batalhas valem a pena travar e deixar de lado o que não ameaça o desenvolvimento ou a harmonia familiar.
Três perguntas que podem ajudar:
- É importante?
“Isto precisa de ser feito para promover o bem-estar do meu filho?” - É urgente?
“Tem de ser feito agora?”
É prioridade de quem?
“Tem de ser o meu filho a fazê-lo neste momento?”
5. Parentalidade consciente: esteja presente e atento
A parentalidade consciente é um ato de autopreservação que ajuda os pais a cultivar bondade e compaixão, especialmente para consigo próprios, perante desafios.
Implica:
- libertar-se de ideias rígidas sobre o que a criança “deveria ser”,
- abandonar expectativas inflexíveis sobre como o mundo “tinha de funcionar”.
O objetivo é ter momentos em que se está verdadeiramente presente e atento à criança — e não apenas fisicamente lá.
Parte desse processo passa por observar o que acontece dentro de si, reconhecendo os seus próprios pensamentos, emoções e gatilhos emocionais. A partir dessa consciência, os pais conseguem substituir reações automáticas por ações mais intencionais.
Esta prática tem demonstrado reduzir o stress parental, melhorar a qualidade de vida e fortalecer a relação entre pais e filhos.
6. Promova a autoconsciência e a responsabilidade
É fundamental:
- incentivar a criança a continuar o bom trabalho,
- ajudá-la a assumir responsabilidade quando as coisas não correm bem.
As crianças com PHDA têm frequentemente dificuldade em perceber o impacto das suas ações, por isso a reflexão guiada é essencial.
Dar um bom exemplo também é importante — por exemplo, os pais avaliarem em voz alta como lidaram com uma situação específica. Isto modela a autoconsciência e mostra que aprender com os erros é um processo normal e saudável.
O Behavior Report Card — um registo diário — torna o progresso visível e ajuda a criança a reconhecer comportamentos e vitórias.
7. Toque mais, recompense mais e fale menos
Longas explicações raramente funcionam.
A PHDA responde melhor a reforço positivo imediato:
- elogios
- recompensas
- contacto físico
- proximidade
O cérebro precisa de sentir a recompensa no momento.
Barkley descreve sistemas simples de recompensas diárias ligadas ao comportamento em casa e na escola. A criança tem resultados concretos e visíveis, e a motivação cresce.
8. Torne o tempo real
Para quem tem PHDA, o tempo é abstrato.
As crianças vivem no “agora” e precisam que o tempo se torne visível e palpável: relógios visuais, temporizadores, listas e rotinas estruturadas ajudam-nas a prever o que vem a seguir e a cumprir prazos.
Barkley mostra como o “horizonte temporal” de uma criança com PHDA é mais curto.
Usar cronómetros e contagens regressivas ajuda a transformar o invisível em algo concreto e possível de gerir.
9. A memória de trabalho não está a funcionar: externalize-a
A criança não se esquece “de propósito” — mas porque a memória de trabalho falha facilmente.
A solução é simples – tornar tudo visível:
- listas,
- post-its,
- quadros,
- instruções visíveis,
compensam aquilo que o cérebro não consegue manter em mente.
10. Organize
Desorganização não é desleixo – é sintoma.
Crie sistemas simples e consistentes:
- locais fixos para objetos
- rotinas previsíveis
- apoios visuais
Mas lembre-se de que ser um pouco impulsivo ou desorganizado também pode contribuir para a criatividade, por isso é importante encontrar o equilíbrio certo, observando como a criança realmente funciona na vida quotidiana.
Considere sempre o ponto de desempenho: os momentos reais em que a criança precisa de apoio.
A estrutura externa ajuda a construir estrutura interna.
Hábitos simples — como deixar a mochila perto da porta — aumentam a autonomia.
11. Torne a resolução de problemas concreta
Resolver problemas é difícil quando o pensamento é caótico.
Por isso, a ajuda deve ser visível e passo a passo:
- dividir tarefas,
- desenhar planos,
- mostrar soluções.
A criança aprende a fazer, não apenas a ouvir.
12. Seja proativo: planeie as situações difíceis
Antecipar é mais eficaz do que reagir.
Planeie antecipadamente os momentos que sabe que serão desafiantes:
- festas
- saídas
- mudanças de rotina
Preparar a criança para o que vai acontecer reduz a ansiedade e os impulsos.
Barkley cita o exemplo de uma festa de aniversário, um contexto muitas vezes avassalador para uma criança com PHDA.
Ao preparar regras, pausas e recompensas com antecedência, os pais evitam que o momento se torne uma fonte de stress.
Conclusão
Russell Barkley lembra-nos que educar uma criança com PHDA não é um exercício de controlo — é um ato de compreensão, estrutura e amor informado.
Quando os pais percebem que a PHDA é uma diferença neurológica, param de culpar e começam a construir:
- rotinas
- segurança
- empatia
- oportunidades
Estes princípios não são receitas — são bússolas: orientam, enquanto deixam espaço para cada família encontrar o seu próprio caminho.
A leitura deste artigo não substitui a consulta do livro — que oferece explicações detalhadas e várias estratégias práticas — mas pretende oferecer uma visão geral das ideias-chave e inspirar uma reflexão sobre como compreender e apoiar melhor as crianças com PHDA.